Hérnia de disco no cão
por Amor de Cão

Um cachorro que de repente não quer subir no sofá, anda com as costas curvadas ou parece evitar se mexer pode estar com dor na coluna. Uma das causas conhecidas é a doença do disco intervertebral, que muita gente chama de hérnia de disco. Ela pode ir de uma dor que melhora com repouso até a perda de movimento das patas. Saber diferenciar o começo do problema de uma situação urgente muda o que o tutor faz nas horas seguintes.
O que acontece na coluna
Entre uma vértebra e outra existe um disco que funciona como amortecedor. Quando esse disco se desgasta, parte do material pode sair do lugar e apertar a medula espinhal, o cordão de nervos que passa por dentro da coluna. O Manual Veterinário MSD, na versão para tutores atualizada em setembro de 2024, descreve que esse aperto pode causar desde dor até fraqueza, paralisia e perda do controle do xixi e do cocô.
Quais cães têm mais risco
Algumas raças de pernas curtas têm uma alteração genética que faz o disco envelhecer mais cedo. O consenso do Colégio Americano de Medicina Interna Veterinária (ACVIM) sobre a hérnia de disco aguda na região das costas, publicado em 2022 no Journal of Veterinary Internal Medicine, associa esse desgaste acelerado a um gene ligado a essas raças. O Manual MSD cita dachshund (o salsicha, também chamado de teckel), beagle, shih tzu, lhasa apso e pequinês entre as raças pequenas mais afetadas, e lembra que cães grandes também podem ter o problema, em geral depois dos cinco anos e com piora mais lenta.
Os dados brasileiros vão na mesma direção. No Hospital Veterinário Universitário da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, um estudo publicado em 2008 na revista Ciência Rural acompanhou 33 cães operados por hérnia de disco nas costas entre 2004 e 2006: 28 eram teckels (84,8%), e a maioria tinha entre quatro e seis anos. Outro levantamento do mesmo hospital, publicado em 2010 na Pesquisa Veterinária Brasileira, analisou 28 cães com hérnia no pescoço operados entre 2003 e 2008 e encontrou o problema também em raças grandes. São dados de um único hospital universitário, não um retrato do Brasil, mas mostram que o tema aparece com frequência no atendimento brasileiro.
Os sinais que o tutor pode notar
Segundo o Manual MSD, quando o problema está no pescoço, aparecem dor, rigidez e músculos contraídos. No estudo da UFSM sobre hérnia no pescoço, todos os 28 cães tinham dor nessa região. Quando o problema está no meio das costas, o cão pode sentir dor, curvar a coluna e evitar se mexer. Nos casos que avançam, surgem fraqueza nas patas, perda de coordenação, paralisia e incontinência.
O cão nem sempre mostra a dor de um jeito óbvio. Mudanças como recusar a escada, parar de pular, ficar mais quieto ou reagir ao toque nas costas são observações úteis para levar à consulta. Elas não fecham diagnóstico: dor na coluna pode ter outras causas, e quem examina e decide é o veterinário.
Quando não dá para esperar
Se o cão perdeu força nas patas, está arrastando as patas de trás ou não consegue andar, procure atendimento veterinário sem esperar para ver se passa. O Manual MSD orienta que, nos casos com sinais neurológicos graves, a cirurgia para aliviar o aperto na medula seja feita imediatamente, e alerta que, quando a cirurgia é adiada por mais de 24 horas depois que o cão deixa de sentir dor nas patas, as chances de recuperação diminuem.
O consenso do ACVIM é mais cauteloso sobre um prazo exato: os estudos disponíveis não fixam um limite de horas para operar, mas há indícios de que a demora pode atrasar a volta a andar. Para o tutor, a conclusão prática é a mesma: perda de movimento é situação de atendimento, não de espera. Essa conversa sai da comunidade e vai para o veterinário.
Repouso, cirurgia e o que os números mostram
Nem todo caso vai para a cirurgia. Segundo o Manual MSD, sinais leves a moderados com dor costumam melhorar com algumas semanas de repouso, e o cão que volta a se movimentar cedo demais pode piorar. O consenso do ACVIM recomenda, quando se opta por tratar sem cirurgia, pelo menos quatro semanas de atividade restrita, em caixa de transporte ou cômodo pequeno sem móveis, sem pular, sem escadas e sem passeio solto. A escolha entre repouso e cirurgia, e qualquer remédio, é decisão do veterinário para aquele cão.
O consenso reúne resultados de vários estudos. Em cães que tinham só dor ou ainda andavam, a evolução foi boa em 98,5% dos operados e em 80% dos tratados sem cirurgia. Em cães paralisados que já não sentiam dor nas patas, os resultados caíram para 61% com cirurgia e 21% sem cirurgia. Na UFSM, a lógica se repetiu: entre os cães operados que ainda tinham sensibilidade de dor, 6 de 7 tiveram boa recuperação; entre os que já tinham perdido essa sensibilidade, 2 de 8. Quanto mais leve o quadro no momento do tratamento, melhor a recuperação.
Pode voltar
O problema pode se repetir. O Manual MSD fala em volta dos sinais em 30% a 40% dos casos. O consenso do ACVIM registra volta em 25% dos dachshunds e 44% dos buldogues franceses nos estudos reunidos. O mesmo consenso aponta que ainda faltam estudos sobre como prevenir a doença, então não existe hoje uma receita comprovada para evitar o primeiro episódio.
O que anotar
Anotar quando a mudança começou, o que o cão deixou de fazer, se a dor parece no pescoço ou nas costas e se houve piora ajuda a organizar a conversa com o veterinário. Se houver perda de força ou de movimento, a conversa é com o veterinário, agora.
Fontes
OLBY, N. J.; MOORE, S. A.; BRISSON, B.; FENN, J.; FLEGEL, T.; KORTZ, G.; LEWIS, M.; TIPOLD, A. "ACVIM consensus statement on diagnosis and management of acute canine thoracolumbar intervertebral disc extrusion". Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 36, n. 5, p. 1570-1596, 2022. DOI: 10.1111/jvim.16480. URL: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9511077
SCHUBERT, T. "Distúrbios da coluna vertebral e da medula espinhal em cães". Manual Veterinário MSD, versão para donos de animais de estimação, atualização em setembro de 2024. URL: https://www.msdvetmanual.com/pt/dog-owners/distúrbios-do-cérebro-da-medula-espinhal-e-dos-nervos-em-cães/distúrbios-da-coluna-vertebral-e-da-medula-espinhal-em-cães
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SANTINI, G.; MAZZANTI, A.; BECKMANN, D. V.; SANTOS, R. P.; PELIZZARI, C.; POLIDORO, D.; BAUMHARDT, R. "Doença do disco intervertebral cervical em cães: 28 casos (2003-2008)". Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 30, n. 8, p. 659-664, 2010. DOI: 10.1590/S0100-736X2010000800009. URL: https://doaj.org/article/521b592f4459485ab4ec26e8c67f0375

