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Cachorro trancado no carro em dia quente: o que a lei diz e como ajudar sem se expor

por Repórter Amor de Cão

A foto mostra o jeito certo de agir e não deixar o cão preso no calor.

Um carro fechado e parado ao sol esquenta por dentro muito mais rápido do que parece. Em um estudo publicado em julho de 2005 na revista científica Pediatrics, os médicos Catherine McLaren e James Quinn, da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e o meteorologista Jan Null mediram a temperatura dentro de carros estacionados em dias de sol com máximas entre 22 °C e 36 °C. Em uma hora, o interior subiu em média cerca de 22 °C, e 80% desse aumento aconteceu na primeira meia hora. Deixar a janela entreaberta não fez diferença significativa.

A pesquisa olhou para o risco de crianças, mas a temperatura medida é a do carro, e é nela que um cachorro trancado fica. A Administração Nacional de Segurança no Trânsito dos Estados Unidos (NHTSA) resume a mesma ideia na sua campanha sobre calor em veículos: baixar os vidros ou parar na sombra muda pouco a temperatura interna. Para o tutor, a conclusão prática é direta: carro estacionado não é lugar de espera para cachorro, nem por alguns minutos. Se o cão não pode entrar onde você vai, o lugar dele é em casa.

Quando vira caso de polícia

No Brasil, maus-tratos a animais são crime pelo artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998). Quando a vítima é cão ou gato, a pena prevista é de reclusão de dois a cinco anos, multa e proibição da guarda. Isso não quer dizer que todo cachorro visto dentro de um carro configure crime. Quem avalia cada situação é a polícia, o Ministério Público e, se houver processo, a Justiça.

Posso quebrar o vidro?

Nas buscas feitas para esta reportagem, não localizamos lei federal que trate especificamente dessa situação. O Código Penal prevê, no artigo 24, o chamado estado de necessidade: não há crime quando alguém age para salvar de um perigo atual, que não provocou e que não podia evitar de outro jeito, um direito próprio ou de outra pessoa. O texto não menciona animais, e saber se ele se aplica a um vidro quebrado para salvar um cachorro depende da análise de cada caso pelas autoridades. Ao mesmo tempo, o Código Penal trata como crime destruir ou danificar bem de outra pessoa (artigo 163). Na prática, quem quebra o vidro por conta própria assume o risco de ter de explicar a decisão à polícia e de responder pelo prejuízo.

Por isso, o caminho mais seguro é chamar quem tem dever e preparo para agir. Orientação publicada em setembro de 2026 pelo Portal do Trânsito, com base em recomendações de segurança para dias quentes, indica tentar localizar o responsável rapidamente e, se o animal estiver ofegante, desorientado ou sem reagir, acionar a Polícia Militar (190), o Corpo de Bombeiros (193) ou o serviço municipal de proteção animal. Em lugares como supermercados e shoppings, pedir à administração que chame o dono pelo sistema de som também é uma forma de tentar encontrar quem deixou o carro.

Registrar não é expor

Anotar a placa, o local, o horário e fazer fotos ajuda a polícia a agir. Postar essas imagens nas redes, com placa visível ou rosto de quem chega ao carro, é outra coisa: expõe uma pessoa antes de qualquer apuração e não tira o cachorro de lá. Os registros servem para as autoridades, não para julgamento público.

Prevenção também virou lei em Santa Catarina

Em Santa Catarina, a Lei estadual 19.875/2026, de autoria do deputado Maurício Peixer e publicada em maio de 2026, segundo a Assembleia Legislativa do estado, obriga estacionamentos e estabelecimentos comerciais a instalar placas que alertam para o risco de deixar animais dentro de veículos. A regra vale apenas para Santa Catarina. Segundo a notícia da Assembleia, a lei trata das placas; não há menção a multas para tutores nem a quebra de vidro.

Segundo a mesma orientação do Portal do Trânsito, depois de retirado do carro o animal precisa de avaliação veterinária, mesmo que pareça melhor, porque complicações podem aparecer mais tarde. Os sinais de que um cão está passando mal com o calor e o primeiro cuidado até o atendimento são assunto da comunidade Saúde do Cão.

Fontes

McLAREN, Catherine; NULL, Jan; QUINN, James. "Heat stress from enclosed vehicles: moderate ambient temperatures cause significant temperature rise in enclosed vehicles". Pediatrics, julho de 2005. Resumo oficial dos achados: STANFORD MEDICINE. "Parked cars get dangerously hot, even on cool days, Stanford study finds". 5 de julho de 2005. URL: https://med.stanford.edu/news/all-news/2005/07/parked-cars-get-dangerously-hot-even-on-cool-days-stanford-study-finds.html

NHTSA, Administração Nacional de Segurança no Trânsito dos Estados Unidos. "Heatstroke". Página de campanha, sem data identificada. URL: https://www.nhtsa.gov/campaign/heatstroke

BRASIL. Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 (Lei de Crimes Ambientais), art. 32, com redação do § 1º-A dada pela Lei nº 14.064/2020. Portal da Legislação do Planalto. URL: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9605.htm

BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), arts. 23, 24 e 163. Portal da Legislação do Planalto. URL: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm

PORTAL DO TRÂNSITO. "Onda de calor transforma carro fechado em risco para crianças e animais". 14 de setembro de 2026. URL: https://www.portaldotransito.com.br/noticias/mobilidade-e-tecnologia/seguranca/onda-de-calor-transforma-carro-fechado-em-risco-para-criancas-e-animais/

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. "Novas leis buscam conscientizar sobre a Síndrome de Apert e o risco de animais deixados em veículos". Agência Alesc, 1º de junho de 2026. URL: https://alesc.sc.gov.br/agencia/noticia/novas-leis-buscam-conscientizar-sobre-a-sindrome-de-apert-e-o-risco-de-animais-deixados-em-veiculos/

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. "Alesc aprova medida para prevenir abandono de animais em veículos". Agência Alesc, 12 de maio de 2026. URL: https://alesc.sc.gov.br/agencia/noticia/deputados-aprovam-medida-para-prevenir-abandono-de-animais-em-veiculos/

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