Em creches para cães, separar os animais por tamanho não basta para evitar brigas
por Amor de Cão

Deixar o cão numa creche significa colocá-lo, por horas, num grupo de animais que ele não escolheu. A brincadeira pode correr bem. Também pode subir de tom até virar briga. A forma como esse grupo é montado e acompanhado pesa tanto quanto o tamanho do espaço ou a qualidade dos brinquedos.
O assunto voltou ao noticiário depois de casos de agressão envolvendo cães hospedados num hotel para animais em Bonito (MS), que estão sob apuração. Na reportagem "Creches de pets precisam de protocolo para evitar e separar brigas graves", publicada pelo Campo Grande News em 6 de outubro de 2026, a médica-veterinária comportamentalista Marcela Barbieri afirma que "não basta separar por tamanho". Segundo ela, a composição do grupo precisa considerar estilo de brincadeira, idade, condição clínica, histórico social, medo ou reatividade e o nível de agitação de cada cão. Ela aponta também um erro comum: achar que só existe problema quando aparece um rosnado. Sinais mais discretos, como desviar o olhar, lamber os lábios e tentar se afastar, costumam vir antes.
A pesquisa sobre brincadeira entre cães ajuda a entender por que o tamanho não resolve tudo. No estudo "Cooperation and competition during dyadic play in domestic dogs", publicado em 2007 na revista Animal Behaviour, as pesquisadoras Bauer e Smuts analisaram vídeos de duplas de cães brincando. Os papéis raramente eram divididos de forma equilibrada: cães mais velhos ou em posição social mais alta perseguiam e atacavam mais e se continham menos. Duas duplas que parecem estar fazendo a mesma coisa podem estar vivendo brincadeiras bem diferentes. Na revisão "Why do dogs play?", publicada em 2017 na Applied Animal Behaviour Science, Sommerville, O'Connor e Asher concluem que brincar não é, por si só, um sinal confiável de bem-estar: o significado depende da história do animal e do contexto.
No Brasil, não existe regra nacional para creches de cães. Em São Paulo, o Projeto de Lei 50/2026, do deputado estadual Fábio Faria de Sá, propõe requisitos mínimos para hospedagem e creches, entre eles separação dos grupos por porte e compatibilidade, limite de animais por monitor conforme o porte (até 15 pequenos, 10 médios ou 5 grandes), câmeras e um médico-veterinário como responsável técnico. A Comissão de Constituição, Justiça e Redação da Assembleia Legislativa deu parecer favorável em 20 de maio de 2026. Esta apuração não localizou aprovação em plenário nem sanção. Por enquanto, é proposta, não obrigação.
Enquanto isso, a escolha fica com o tutor. A reportagem do Campo Grande News reúne perguntas úteis antes de matricular o cão: como os grupos são formados, quantos cães cada profissional acompanha, como novos animais são apresentados, quais são os períodos de descanso, que espaço existe para separar um cão e qual é o protocolo em caso de briga. Uma boa resposta descreve um processo, não apenas uma garantia. Nas palavras da especialista, "adaptação é um processo, não um teste de cinco minutos".
Depois que o cão começa a frequentar, a observação continua em casa. A especialista orienta prestar atenção a mudanças de comportamento após a creche, porque a dor pode aparecer primeiro dessa forma. Alterações sem explicação pedem avaliação veterinária. E se o cão mostra medo ou tenta se afastar do grupo com frequência, vale conversar com a creche sobre se aquele ambiente, naquele formato, faz sentido para ele.

